Quanto você paga pelo cuidado?
Juliana Anacleto *
Enfim, a partir de hoje, (03/04/2013, as domésticas passam a ser consideradas perante as leis trabalhistas, trabalhadoras. Sim, a tal PEC das domésticas, que vimos os meios de comunicação na última semana falarem tanto, é importante, pois conduz ao lugar de trabalhadoras aquelas que nunca tiveram os mesmos direitos de todos os outros (de todas as ocupações) trabalhadores. Mas por que demoramos tanto tempo para aprovar uma lei que, a olhos vistos, é justa? Para entender como o trabalho das domésticas é percebido pela sociedade, é preciso entender como o trabalho doméstico nosso de cada dia, esse mesmo que você muita das vezes não entende por que ele nunca acaba, compõe as relações familiares.
Se pararmos para refletir um pouco, é visível a desvalorização das atividades domésticas cotidianas, aquelas que não são pagas a ninguém, pois quem as executa somos nós mesmos. É visível também o senso comum promulgar que se atividade não gera renda, não produz nem gera riqueza, essa atividade não é trabalho. Logo, se nem trabalho é, como valorizá-lo?
Forçando um pouquinho mais a mente, e saindo do mundo fantástico da naturalização das ações sociais, é possível perceber também que cabe às mulheres essas atividades que não cessam. Isto porque a vida não cessa, e todo dia temos (e queremos) que tomar café da manhã, vestir roupas limpas e deitar em lençóis macios. Cabe à elas porque são elas mais cuidadosas, mais atentas, precavidas, prudentes, jeitosas.... Como se elas nascessem com o gene do cuidado e eles com o gene da aventura.
Durante séculos, coube às mulheres nada mais do que o cuidado com o lar, o marido e os filhos. Em poucas décadas isso mudou. Mudou? Bem, agora elas podem compor a renda familiar, estudar, serem cientistas, médicas, advogadas, engenheiras, astronautas. Mas são delas ainda as atividades domésticas, pois as mulheres não deixaram de ser mais cuidadosas com sua entrada no mundo público do trabalho. Sua jornada de trabalho aumentou e muitas delas necessitam externalizar parte do serviço doméstico, contratando uma outra mulher para fazer parte do seu trabalho.
O Brasil, nos últimos 20 anos, assistiu a uma incrível entrada de mulheres no mercado de trabalho em todos os setores, nas mais variadas ocupações. O que se vê hoje, é uma enorme parcela das novas profissionais requerendo empregadas domésticas, aquelas que ficam o dia todo em casa, cuidam dos filhos, dos idosos, dos cachorros e gatos, da alimentação da família, da limpeza do lar e que, de preferência, não se sentem no sofá.
A aprovação de uma lei no Brasil que equipare as empregadas domésticas aos outros trabalhadores, com direito a FGTS, férias, seguro desemprego, hora extra, adicional noturno e regulamentação da segurança no trabalho, representa uma grande conquista à todas as mulheres, pois apresenta uma valorização do trabalho doméstico em si. O terrorismo midiático parece quer convencer a todos que valorizar o trabalho doméstico é fechar as portas da atividade às empregadas, pois ninguém poderá mais contratar uma. Falácia das brabas. A demanda por essa atividade só tende a crescer, e não será 8% a mais de FGTS e hora extra paga por trabalho feito que extinguirá a ocupação.
Afinal, quanto vale o trabalho de alguém que cuida de seu bem mais precioso, sua casa e o que tem dentro dela?
*Juliana Anacleto é Doutora em Sociologia pela UFMG com a tese Trabalho doméstico no Brasil: Uma análise das transformações recentes.
** imagem - Jantar no Brasil, litografia, Jean-Baptiste Debret, 1827