Livro ( Bom) A Revolução dos Bichos



Era uma vez uma fazenda onde tudo corria normalmente. Os bichos eram subjugados pelo homem, como deveria ser. Eles serviam a seus propósitos na natureza e tudo estava em seu devido lugar. Até que um dia alguém achou que o trabalho estava pesado demais. Que os trabalhadores animais deveriam receber também seu quinhão. Foi o tempo da Revolução. Houve logo depois o tempo da euforia, um breve período de paz e logo chegou a Tirania que veio para ficar.

A Revolução dos Bichos é mais um texto inquietante de George Orwell que retrata a sociedade humana através da fábula. O livro foi lançado em 1945, depois de ter sido rejeitado por vários editores , entre os quais o poeta T.S. Eliot. Muitos intelectuais ingleses torceram o nariz e disseram com todas as letras que o livro nunca deveria ter sido publicado.  Acredita-se que A Revolução dos Bichos seja uma crítica ao regime comunista e isto Orwell - socialista declarado - sempre negou. Tenho uma certa tendência a acreditar no autor. 

Pode até ser que seja uma clara crítica aos soviéticos mas seria assim tão óbvia sua leitura? O livro cabe como uma luva em diversas tentativas frustradas que tivemos de mudar o mundo - e digo isto em termos micro e macro - falando da natureza humana como poucos textos. Mesmo em situações cotidianas no trabalho ou qualquer grupo do qual façamos parte, vemos cenas como as narradas em A Revolução dos Bichos. E é isto que assusta.

Definitivamente A Revolução dos Bichos deveria ter sido publicado e Orwell lutou para que isto acontecesse, falecendo um ano depois. É sua obra mais conhecida e não por acaso. A Revolução dos Bichos fala de nós de uma maneira pouco agradável e necessária. Recomendo.


Da (falta de) educação no Brasil



Seria uma tarde numa fila de banco como outra qualquer se não aparecesse a moça, no uniforme do supermercado escrito nas costas  TREINAMENTO, com uma cada muito amarrada. Ela falava entre os dentes que havia algum problema com seu cartão e furou a fila do caixa de atendimento prioritário alegando precisar de uma informação. Como o problema custava a ser resolvido, os idosos começaram reclamar e foram xingados pela moça que parecia foi aconselhada a tentar novamente o caixa eletrônico uma vez confirmado que sua senha estava correta.

Algumas pessoas reagiram , chamando-a de mal educada, enquanto a moça ia emburrada para a fila tentar usar o cartão. Foi aí que comecei a observá-la mais atentamente e desconfiei do que se tratava. Eu estava certa. Aquela moça, que parecia estar em treinamento para a função de empacotadora - o que requer o 1o grau completo - é uma analfabeta funcional e faz companhia a mais de 30 milhões de brasileiros. Estando a sós com a máquina e olhando-a como se fosse um extraterrestre, ela tentou diversas vezes entender seus comandos sem sucesso. A moça não conseguia entrar com  seus os dados em uma operação simples e rotineira. Além de sentir pena, comecei a pensar.

Assim é a educação no Brasil. Um problema crônico que se arrasta desde os caravelas que trouxeram os primeiros jesuítas imbuídos de ensinar aos colonos e indígenas daqui a visão de mundo eurocêntrica. Não tivemos, salvo honrosas porém pontuais exceções, preocupação com uma educação que forme um ser humano integral e crítico do mundo em que vive. Tudo o que se buscou foi a capacitação para o trabalho e instrumentalização para o cumprimento de tarefas na sociedade, como votar, assinar o contracheque e o comprovante de compra do cartão de crédito. 

Como não poderia deixar de ser, nosso modelo - existe um modelo? - de educação falhou. A moça, a empacotadora em treinamento, que deve possuir o 1o. grau apenas no papel, não está inserida em sociedade, sente-se marginalizada devolve o tratamento com revolta e xingamentos. Ela não deve conseguir o emprego, ela sequer consegue receber seu dinheiro. Ela não deve conseguir nada e eles ainda continuam dizendo que está tudo bem. 

* imagem google images - não identifiquei o autor da charge.


PEC das Domésticas - Quanto você paga pelo cuidado?






Quanto você paga pelo cuidado?
Juliana Anacleto *

Enfim, a partir de hoje, (03/04/2013, as domésticas passam a ser consideradas perante as leis trabalhistas, trabalhadoras. Sim, a tal PEC das domésticas, que vimos os meios de comunicação na última semana falarem tanto, é importante, pois conduz ao lugar de trabalhadoras aquelas que nunca tiveram os mesmos direitos de todos os outros (de todas as ocupações) trabalhadores. Mas por que demoramos tanto tempo para aprovar uma lei que, a olhos vistos, é justa? Para entender como o trabalho das domésticas é percebido pela sociedade, é preciso entender como o trabalho doméstico nosso de cada dia, esse mesmo que você muita das vezes não entende por que ele nunca acaba, compõe as relações familiares.

Se pararmos para refletir um pouco, é visível a desvalorização das atividades domésticas cotidianas, aquelas que não são pagas a ninguém, pois quem as executa somos nós mesmos. É visível também o senso comum promulgar que se atividade não gera renda, não produz nem gera riqueza, essa atividade não é trabalho. Logo, se nem trabalho é, como valorizá-lo?

Forçando um pouquinho mais a mente, e saindo do mundo fantástico da naturalização das ações sociais, é possível perceber também que cabe às mulheres essas atividades que não cessam. Isto porque a vida não cessa, e todo dia temos (e queremos) que tomar café da manhã, vestir roupas limpas e deitar em lençóis macios. Cabe à elas porque são elas mais cuidadosas, mais atentas, precavidas, prudentes, jeitosas.... Como se elas nascessem com o gene do cuidado e eles com o gene da aventura.

Durante séculos, coube às mulheres nada mais do que o cuidado com o lar, o marido e os filhos. Em poucas décadas isso mudou. Mudou? Bem, agora elas podem compor a renda familiar, estudar, serem cientistas, médicas, advogadas, engenheiras, astronautas. Mas são delas ainda as atividades domésticas, pois as mulheres não deixaram de ser mais cuidadosas com sua entrada no mundo público do trabalho. Sua jornada de trabalho aumentou e muitas delas necessitam externalizar parte do serviço doméstico, contratando uma outra mulher para fazer parte do seu trabalho. 

O Brasil, nos últimos 20 anos, assistiu a uma incrível entrada de mulheres no mercado de trabalho em todos os setores, nas mais variadas ocupações. O que se vê hoje, é uma enorme parcela das novas profissionais requerendo empregadas domésticas, aquelas que ficam o dia todo em casa, cuidam dos filhos, dos idosos, dos cachorros e gatos, da alimentação da família, da limpeza do lar e que, de preferência, não se sentem no sofá. 

A aprovação de uma lei no Brasil que equipare as empregadas domésticas aos outros trabalhadores, com direito a FGTS, férias, seguro desemprego, hora extra, adicional noturno e regulamentação da segurança no trabalho, representa uma grande conquista à todas as mulheres, pois apresenta uma valorização do trabalho doméstico em si. O terrorismo midiático parece quer convencer a todos que valorizar o trabalho doméstico é fechar as portas da atividade às empregadas, pois ninguém poderá mais contratar uma. Falácia das brabas. A demanda por essa atividade só tende a crescer, e não será 8% a mais de FGTS e hora extra paga por trabalho feito que extinguirá a ocupação. 

Afinal, quanto vale o trabalho de alguém que cuida de seu bem mais precioso, sua casa e o que tem dentro dela?



*Juliana Anacleto é Doutora em Sociologia pela UFMG com a tese Trabalho doméstico no Brasil: Uma análise das transformações recentes.


** imagem - Jantar no Brasil, litografia, Jean-Baptiste Debret, 1827

Um livro conta os bastidores do Conclave - As Sandálias do Pescador




Em tempos de Conclave para escolha de novo Papa da Igreja Católica até quem não é religioso fica curioso sobre os ritos e bastidores do Vaticano. Li romance  que retratam os detalhes da escolha do Papa e alguns dos conflitos pessoais que o cargo pode trazer. Trata-se de As Sandálias do Pescador, de Morris West. O livro contra a história da escolha de um cardeal do leste europeu que se torna Papa e luta para manter a Igreja unida em tempos difíceis. As Sandálias... é o primeiro livro de uma trilogia que se completa com Os Palhaços de Deus e o Milagre de Lázaro. 

Morris West, católico fervoroso, fez uma enorme pesquisa sobre os ritos papais e descreve perfeitamente um Conclave mas, não é só isto. As sandálias... é um belo romance sobre um homem investido numa tarefa difícil, uma história de santidade e de humanidade. Com o sucesso, o livro acabou virando um filme belíssimo com Antony Quinn brilhante no papel de Kiril Lakota. Tanto livro quanto filme valem seu tempo.


#Facebook, modo de usar - Gostou? Compartilhe!


Imagens incríveis, belos dizeres e apenas um pedido - ou será uma ordem? - : "Gostou? Compartilhe!" Quantas vezes por dia você se depara com este tipo de publicação no Facebook? Tática usada e abusada pelas Fan Pages o pedido "na lata" de compartilhamento já virou prática cotidiana. E Facebook é isso mesmo, não é? Um local onde compartilhamos aquilo de que gostamos, nossas ideias, ideias dos outros, um lugar para debates e gerar lucros para grandes empresas sem ganhar nenhum centavo. Todos fazem isso, damos dinheiros para os outros sem pensar. Achou a imagem bonitinha, curta e compartilhe. Inofensivo. Só tem um porém.

As grandes empresas descobriram as redes sociais e passaram a usá-las como instrumentos para sedimentação da marca. Não há nada de errado com isso. Quero dizer, não haveria nada de errado se fosse só isso. O problema acontece quando o usuário é usado para fazer a propaganda de graça, só por que a foto é bonitinha. Aí fica fácil demais, é como tirar doce de criança. Somos evangelizadores da marca, assim nos chamam os criadores destas lindas imagens. Um nome bonito, mas o que fazemos é propaganda totalmente de graça e ainda compramos os produtos. Isso acontece sempre que uma imagem bonitinha, com dizeres lindos circula com um logo da empresa ali pertinho. A maioria das pessoas não para para refletir, após o share inocente, nos lucros monstruosos que sua ação gera para a empresa, mas - e esta é somente minha modesta opinião, creio que só se deve fazer isso quando se acredita realmente no produto. 



Se eu amo o sabão em pó, a linha láctea - aquilo não é leite, gente - ou toda a linha de produtos promovidos pelo Faustão mediante um cachê vultuoso -  já que o apresentador não é bobo de fazer propaganda de graça - tenho direito de compartilhar o que bem desejar. Mas, será que é isso mesmo o que eu quero ou foi só a imagem inocente que me seduziu?



Gostou? Compartilhe. Mas pense bem se gosta mesmo daquela marca, se ela merece sua assinatura. Na dúvida é bom compartilhar só aquilo que merece.

Luta das mulheres para escrever no Brasil não é coisa de novela


Assim como a personagem da novela da Rede Globo Lado a Lado, muitas mulheres escreveram apesar do que pensava a sociedade do final do século XIX e início do século XX. A novela das seis da tarde que termina na próxima semana abordou diversos fatos históricos e a luta das mulheres para se fazerem presentes no cenário cultural é uma delas. Na ficção, Laura, vivida por Marjorie Estiano tenta ser aceita como jornalista  e é recusada por todos os editores por ser mulher. No capítulo que irá ao ar no dia 8 de março, Laura ficará sabendo que ganhou um importante prêmio do jornalismo sob o pseudônimo de Paulo Lima, mas não poderá recebê-lo por ser mulher.  Mas, se você acha que a realidade  é diferente da ficção está enganado. Muitas mulheres escreviam naquela época. E não era sobre receita de bolo.



No livro Ensaístas Brasileiras, da editora Rocco, Heloísa Buarque e Hollanda e Lucia Nascimento Araújo catalogaram biografias de mulheres que escreveram sobre literatura e artes de 1860 até 1991. Mulheres desafiaram a sociedade e escreveram, promoveram a literatura e as artes. Fosse pela leitura em saraus, em publicações editadas por mulheres ou por alguns homens corajosos, as mulheres produziram literatura. Ao invés de permanecerem limitadas aos afazeres domésticos e criação dos filhos, estas mulheres ousaram dizer o que pensavam. 

"Era necessário deixar um pouco de lado os alfinetes e os bordados que impregnavam a vida feminina e tecer outros rendados históricos em busca de certos ideais" ( Elizabeth Siqueira, escritora mineira)

Já o livro Escritoras Brasileiras do século XIX, organizado por  Zahidé Lupinacci Muzart  é assim apresentado :

"Elas foram donas-de-casa, esposas amantíssimas, mães exemplares, mas também jornalistas, poetas, dramaturgas, sufragistas, ensaístas, mulheres de letras numa época em que a divisão do trabalho sexual era muito nítida: ao sexo masculino cabia a vida pública e ao feminino o universo doméstico. Mas, apesar de tanto esforço pessoal para enfrentar as barreiras de uma sociedade patriarcal e de eventualmente ter alcançado sucesso em seu tempo, seus nomes foram apagados da história da literatura brasileira. Para quebrar esse silêncio forçado, iniciou-se um longo trabalho de resgate, reunindo pesquisadores em todo o país, que culmina agora com o lançamento do primeiro volume de Escritoras brasileiras do século 19, o mais ambicioso projeto da Editora Mulheres. A antologia reúne parte da obra de 52 mulheres brasileiras que escreveram seu nome no século 19, permitindo que suas vozes, às vezes românticas, às vezes irônicas, não raro transgressoras, possam ser ouvidas novamente."

A apresentação da personagem Laura não parece inverossímil. Afinal, sua atividade profissional era uma das poucas que a mulher podia exercer de cabeça erguida na sociedade da época: professora. Como  bem explicaram Mary Pratt e Marta Moreno na revista Nuevo Texto Crítico ( de 1989) 

" Apesar dos esforços em "domesticar" a mulher privilegiada durante o século XIX, e de negar-lhes os direitos políticos e profissionais que elas esperavam do republicanismo, nunca foi-lhes negado o direito à alfabetização e uma participação, ainda que subalterna na cultura letrada. Ao contrário, nas Américas, e esta é a contradição mais significativa, a sociedade burguesa terminou por definir a própria alfabetização como uma tarefa essencialmente feminina." (in, Ensaístas Brasileiras)

Pois muito bem, se elas podiam aprender a ler e até alfabetizar as crianças, também podiam produzir textos literários e críticos. E assim começou a história da mulher pensar sua realidade. Dentro de casa.

Fontes: Ensaístas Brasileiras, Ed. Rocco 1993
            Editora Mulheres




Livro Bom - Morte Súbita, de J. K. Rowling


Durante todos os anos em que li os livros da série Harry Potter, a obra que já nasceu clássico, fiquei me perguntando como J. K. Rowling se saira quando estivesse finalmente livre da trama que a consagrou mundialmente, fez dela a mulher mais rica da Grã-Bretanha e colocou seu nome entre os maiores escritores atuais. Lendo Morte Súbita vejo que ela se saí muito bem também falando sobre temas cotidianos e verossímeis.

A história de Morte Súbita se passa em uma pequena cidade nos arredores de Londres e começa no dia em que um dos conselheiros da Paróquia morre - sim, subitamente - deixando aberta sua vaga no conselho. A disputa pelo lugar do falecido Barry Fairbrother aos poucos abre ao leitor a difícil realidade dos habitantes do local, suas diferenças, amores, desamores e tragédias.

Assim como a série Harry Potter, Morte Súbita é leitura fácil e prende logo de início. Por aqui foi lido em 2 dias, todas as 512 páginas.  Como a luta política da cidade terminará? Como cada um dos dramas pessoais apresentados influirá na disputa pelo poder? É o tipo de livro que faz o leitor virar a noite.

Achei e compartilho este infográfico que apresenta os  núcleos dos personagens da trama e é interativo, vá passando o mouse. 







Infográfico daqui 
Para saber mais sobre o livro , visite o site oficial

Leia no Mãe é tudo igual

 
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