Assim como a personagem da novela da Rede Globo Lado a Lado, muitas mulheres escreveram apesar do que pensava a sociedade do final do século XIX e início do século XX. A novela das seis da tarde que termina na próxima semana abordou diversos fatos históricos e a luta das mulheres para se fazerem presentes no cenário cultural é uma delas. Na ficção, Laura, vivida por Marjorie Estiano tenta ser aceita como jornalista e é recusada por todos os editores por ser mulher. No capítulo que irá ao ar no dia 8 de março, Laura ficará sabendo que ganhou um importante prêmio do jornalismo sob o pseudônimo de Paulo Lima, mas não poderá recebê-lo por ser mulher. Mas, se você acha que a realidade é diferente da ficção está enganado. Muitas mulheres escreviam naquela época. E não era sobre receita de bolo.
No livro Ensaístas Brasileiras, da editora Rocco, Heloísa Buarque e Hollanda e Lucia Nascimento Araújo catalogaram biografias de mulheres que escreveram sobre literatura e artes de 1860 até 1991. Mulheres desafiaram a sociedade e escreveram, promoveram a literatura e as artes. Fosse pela leitura em saraus, em publicações editadas por mulheres ou por alguns homens corajosos, as mulheres produziram literatura. Ao invés de permanecerem limitadas aos afazeres domésticos e criação dos filhos, estas mulheres ousaram dizer o que pensavam.
"Era necessário deixar um pouco de lado os alfinetes e os bordados que impregnavam a vida feminina e tecer outros rendados históricos em busca de certos ideais" ( Elizabeth Siqueira, escritora mineira)
Já o livro Escritoras Brasileiras do século XIX, organizado por Zahidé Lupinacci Muzart é assim apresentado :
"Elas foram donas-de-casa, esposas amantíssimas, mães exemplares, mas também jornalistas, poetas, dramaturgas, sufragistas, ensaístas, mulheres de letras numa época em que a divisão do trabalho sexual era muito nítida: ao sexo masculino cabia a vida pública e ao feminino o universo doméstico. Mas, apesar de tanto esforço pessoal para enfrentar as barreiras de uma sociedade patriarcal e de eventualmente ter alcançado sucesso em seu tempo, seus nomes foram apagados da história da literatura brasileira. Para quebrar esse silêncio forçado, iniciou-se um longo trabalho de resgate, reunindo pesquisadores em todo o país, que culmina agora com o lançamento do primeiro volume de Escritoras brasileiras do século 19, o mais ambicioso projeto da Editora Mulheres. A antologia reúne parte da obra de 52 mulheres brasileiras que escreveram seu nome no século 19, permitindo que suas vozes, às vezes românticas, às vezes irônicas, não raro transgressoras, possam ser ouvidas novamente."
Já o livro Escritoras Brasileiras do século XIX, organizado por Zahidé Lupinacci Muzart é assim apresentado :
"Elas foram donas-de-casa, esposas amantíssimas, mães exemplares, mas também jornalistas, poetas, dramaturgas, sufragistas, ensaístas, mulheres de letras numa época em que a divisão do trabalho sexual era muito nítida: ao sexo masculino cabia a vida pública e ao feminino o universo doméstico. Mas, apesar de tanto esforço pessoal para enfrentar as barreiras de uma sociedade patriarcal e de eventualmente ter alcançado sucesso em seu tempo, seus nomes foram apagados da história da literatura brasileira. Para quebrar esse silêncio forçado, iniciou-se um longo trabalho de resgate, reunindo pesquisadores em todo o país, que culmina agora com o lançamento do primeiro volume de Escritoras brasileiras do século 19, o mais ambicioso projeto da Editora Mulheres. A antologia reúne parte da obra de 52 mulheres brasileiras que escreveram seu nome no século 19, permitindo que suas vozes, às vezes românticas, às vezes irônicas, não raro transgressoras, possam ser ouvidas novamente."
A apresentação da personagem Laura não parece inverossímil. Afinal, sua atividade profissional era uma das poucas que a mulher podia exercer de cabeça erguida na sociedade da época: professora. Como bem explicaram Mary Pratt e Marta Moreno na revista Nuevo Texto Crítico ( de 1989)
" Apesar dos esforços em "domesticar" a mulher privilegiada durante o século XIX, e de negar-lhes os direitos políticos e profissionais que elas esperavam do republicanismo, nunca foi-lhes negado o direito à alfabetização e uma participação, ainda que subalterna na cultura letrada. Ao contrário, nas Américas, e esta é a contradição mais significativa, a sociedade burguesa terminou por definir a própria alfabetização como uma tarefa essencialmente feminina." (in, Ensaístas Brasileiras)
Pois muito bem, se elas podiam aprender a ler e até alfabetizar as crianças, também podiam produzir textos literários e críticos. E assim começou a história da mulher pensar sua realidade. Dentro de casa.








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1 fios puxados:
Não acompanho a novela, mas mesmo assim gostei muito de seu artigo. Que bom estarem fazendo esse trabalho de resgate. Quantas vozes femininas ficaram ocultas durante esse tempo todo?
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